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A questão ignorada que pode ser crucial para definir o próximo presidente do Brasil

Para Americas Quaterly, o problema da violência tem sido amplamente ignorado pela maioria dos políticos; Bolsonaro, que toca nesse ponto, vê suas intenções de voto subirem

SÃO PAULO - A eleição de 2018, mesmo que ainda distante, ganha um espaço bastante significativo no noticiário e na análise política. Neste cenário, as pesquisas eleitorais são observadas atentamente: as últimas mostraram que o ex-presidente Lula e o deputado Jair Bolsonaro estão na frente nas intenções de voto.

Com destaque para o parlamentar, duas análises estrangeiras chamaram a atenção nos últimos dias. Em artigo publicado no final da semana passada, o editor da revista ''Americas Quarterly'', Brian Winter, destacou um dos motivos que ajudam a explicar a ascensão de Bolsonaro: a sensação de insegurança no Brasil. Ele aponta que a "violência no Brasil está fora de controle'', e ''os brasileiros parecem tolerar cada vez menos o que está acontecendo''. Neste ambiente, questões de segurança vão ter tanta importância quanto a economia nas eleições de 2018, e podem definir o próximo presidente do país, afirma a coluna do editor. 

E, neste ambiente, por mais que as políticas defendidas por Bolsonaro sejam criticadas por especialistas, o parlamentar aparece como o único candidato que vem falando abertamente sobre a violência, avalia Winter. ''Parece óbvio: alguém mais no campo dos candidatos a presidente precisa oferecer uma alternativa sã, democrática e com credibilidade –uma estratégia de segurança que respeite os direitos humanos, mas que seja também ambiciosa e ampla o suficiente para reduzir dramaticamente a violência nacionalmente'', avalia o editor da publicação, afirmando que os políticos do establishment fogem do debate sobre esse assunto.

E complementa: "é imoral e em último caso suicida para a classe política continuar a tratar a violência como um problema de outros grupos, ou um tipo de tabu. A crise é severa demais e todas as soluções têm que ser avaliadas, desde que sejam democráticas e respeitem a vida humana". 

Outra publicação que destacou esse tema para as eleições de 2018 foi o jornal britânico Financial Times, em sua newsletter sobre a América Latina chamada Latam Viva. A publicação toma como exemplo o Rio de Janeiro, com mais de 100 policiais mortos em 2017 em meio a uma onda de violência que assola a cidade e que levou o governo federal a enviar o Exército para as favelas.

O FT cita a pesquisa Datafolha, em que mostra que a maioria dos moradores da cidade do Rio de Janeiro tem vontade de mudar de cidade por causa da violência:sete em cada dez declararam que se fosse possível mudariam de cidade, enquanto somente 27% não mudariam. Além disso o jornal aponta que um estudo recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública chamado "Medo da Violência e Apoio ao Autoritarismo no Brasil" sugeriu uma tendência maior ao autoritarismo. 60% dos adultos brasileiros responderam "sim" à questão de se "a maioria das questões sociais seria resolvida se pudéssemos nos livrar de pessoas imorais, delinquentes e pervertidas ". Além disso, 53% concordaram com a afirmação de que os policiais são "guerreiros de Deus para impor a ordem e proteger as pessoas boas".

Soma-se a esse ambiente o escândalo de corrupção na Petrobras, que enfraqueceu fortemente o apoio à classe política tradicional e deixou a próxima eleição em aberto. Com todo esse cenário, os discursos de Bolsonaro, a sua contrariedade aos investimentos chineses e suas falas polêmicas sobre a ditadura militar estão aumentando suas chances, avalia o FT. 

"Mesmo sem um plano econômico claro enquanto o Brasil emerge de uma recessão brutal, o homem visto por alguns como um híbrido do presidente dos EUA, Donald Trump, e de seu homólogo filipino, Rodrigo Duterte, está em segundo lugar na última pesquisa da Datafolha, um ano antes da eleição. Embora suas taxas de rejeição também sejam altas, ele ainda pode garantir o apoio do influente bloco evangélico", avalia o jornal. 

Em Boston, nesta semana, ele disse que Trump serve como um exemplo para ele, aponta o jornal. A publicação lembra que, quase um ano atrás, Bolsonaro disse em um tuíte que a vitória do presidente dos EUA foi um presságio, citando a frase do parlamentar na época: "vence aquele que lutou contra tudo e todos. Em 2018 será o Brasil no mesmo caminho". Conforme aponta o jornal britânico, agora esses nomes não podem mais ser ignorados. 

Bandeira - Brasil
(Bloomberg)

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